"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 9 de dezembro de 2017

Ornithopus compressus L.

Nomes comuns:
Serradela; serradelas; serradela-amarela; serradela-estreita-serrim; 
serrim; serradela-brava;  trevo-pé-de-pássaro; 
senradela-amarela; senradela-brava

Ornithopus compressus é uma leguminosa, nativa da bacia mediterrânica. É geralmente cultivada como espécie forrageira de inverno, podendo ser uma fonte de alimento de grande importância no desenvolvimento e reprodução de animais ruminantes (ovelhas, cabras e gado bovino), devido ao seu alto teor de proteínas.
Contudo, esta espécie também cresce de forma espontânea um pouco por todo o nosso país, sendo autóctone em Portugal continental e Madeira e introduzida nos Açores.
Como espécie ruderal ocorre nas margens dos caminhos, pinhais, terrenos cultivados ou incultos, matos e matagais, sobretudo em solos siliciosos mas não demasiado ácidos.
Esta é uma herbácea de ciclo de vida anual. Embora cresça vegetativamente durante o inverno e floresça durante a primavera as raízes são profundas, na procura da humidade de que a planta precisa para melhor se desenvolver, não vá a chuva ser escassa. Planta prevenida...
Os caules são ramificados e pubescentes podendo ir dos 5 aos 50 cm de comprimento na fase adulta; podem ser eretos, prostrados ou parcialmente prostrados, mas com a extremidade ascendente.
As folhas são compostas, dividindo-se num número variável de pares de folíolos, com um único folíolo terminal. 
Os folíolos são ovados ou elípticos, geralmente terminando numa ponta curta, aguda e rígida e estão densamente cobertos de pelos longos e macios. 
As estípulas existem apenas na base das folhas inferiores; são muito pequenas, com menos de 1 mm, triangulares e com o ápice geralmente purpúreo.
As flores são amarelas e agrupam-se em inflorescências que se formam no ápice de longos caules axilares. 
Abaixo das inflorescências surge uma bráctea foliácea de cor verde, com 7 a 9 folíolos e cujo comprimento, de forma geral, ultrapassa o das flores. O número de flores por inflorescência é variável, entre 1 a 5. 
As pequenas flores estão rodeadas por pequenas bractéolas, dentadas, com o ápice de cor ocre.
As sépalas que constituem o cálice estão cobertas de pelos longos e macios e formam um tubo, estando unidas até cerca de metade do seu comprimento, terminando em 5 dentes desiguais.
A corola é constituída por 5 pétalas de cor amarela. Estas são desiguais e dispõem-se de forma muito característica e altamente especializada em atrair os insetos polinizadores: a pétala maior chamada estandarte está situada em posição superior e é, pelo seu tamanho e forma o ponto de atração para os polinizadores; as duas pétalas laterais denominadas asas funcionam como pista de aterragem; e as duas inferiores, unidas apenas no ápice, formam a chamada quilha.
A flor possui órgãos de reprodução femininos e masculinos. Nesta espécie os estames são diadelfos, situação em que um deles é livre e os demais estão soldados entre si. Os estames estão encobertos pelas pétalas que formam a quilha. Quando os insetos pousam nas asas, a quilha baixa e o contacto destes com os estames e o estigma é inevitável. Quando vão embora, os insetos levam o pólen libertado pelas anteras colado ao corpo, ao mesmo tempo que terão deixado no estigma os grãos de pólen recolhidos noutras flores da mesma espécie.
Os frutos são vagens pubescentes, fortemente curvadas na parte superior, dando a ideia de uma foice, com uma espécie de bico na extremidade. Estas vagens são articuladas pois são formadas por segmentos e a vagem mostra-se levemente contraídas entre eles. Ou seja, na maturação as vagens dividem-se em porções indeiscentes, separando-se pelas articulações, cada uma delas com uma semente dura, de cor amarelada ou acastanhada, de forma oblonga e achatada.
As sementes são duras pelo que não germinam no segundo ano, apenas contribuindo para enriquecer o banco de sementes no solo. No terceiro ano as sementes germinam com as chuvas de outono, crescem durante o inverno e a primavera, ainda que o seu desenvolvimento invernal esteja muito dependente da humidade e da temperatura. A floração e a frutificação têm lugar durante a primavera seguinte, após o que as plantas secam durante o verão, voltando as populações de Ornithopus compressus a regenerar-se no outono seguinte a partir do banco de sementes. É assim que esta espécie orienta o seu ciclo de vida, por forma a escapar à seca estival.
Ornithopus compressus pertence ao género Ornithopus. Este termo deriva do grego e significa “pé-de-pássaro”, referindo-se à forma como se posicionam as vagens, assemelhando-se o seu conjunto aos dedos das patas de uma ave. O termo que designa a espécie compressus deriva do latim e significa apertado/comprimido e refere-se à forma comprimida da vagem.~
As cerca de 6 espécies do género Ornithopus incluem-se na família Fabaceae=Leguminosae e subfamília Faboideae=Papilionoideae, a qual tem uma enorme importância económica a nível mundial, pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana, tais como, a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar algumas.
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos e árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.

Uma característica muito importante das leguminosas em geral, e das espécies da subfamília Papilionoideae/Faboideae em particular, é o facto de serem capazes de converter o azoto/nitrogénio atmosférico (nutriente muito importante mas escasso no solo, embora presente em quase 80% da atmosfera terrestre) em moléculas proteicas, as quais são aproveitadas para o seu próprio desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias dos géneros Bradyrhizobium e Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas, através de nodosidades visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que espécies de leguminosas possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
A quantidade de azoto fixado por estas bactérias que com elas vivem associadas (bactérias rizobianas) depende, entre outros fatores, da espécie de leguminosa e das condições do solo.
Raízes de uma leguminosa com nódulos fixadores de azoto
Fonte MORNING EARTH
Em solos em que estas bactérias não estejam disponíveis podem as mesmas ser adquiridas, sendo possível inocular não só as sementes mas também os solos. Podem adquirir-se bactérias fixadoras de estirpes selecionadas e adequadas a cada tipo de leguminosa. O uso específico destes inoculantes rizobianos é muito recomendável, registando-se economias relevantes no custo da produção agrícola, ao mesmo tempo que é bom para o ambiente. Ou seja, possibilita um aumento significativo na rentabilidade das sementeiras e por outro lado, permite uma significativa redução no uso de adubos azotados.
Na mesma ordem de ideias, há quem prefira utilizar os chamados “adubos verdes” para enriquecer o solo, em detrimento de produtos químicos. Isto consiste em cultivar espécies de crescimento rápido da família das leguminosas, as quais são colhidas e logo enterradas no mesmo local antes de florescerem e criarem sementes. Esta prática promove o enriquecimento do solo com azoto e outros nutrientes, além de melhorar a estrutura dos terrenos, protegendo-os da seca e limitando o desenvolvimento das ervas daninhas.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã



sábado, 11 de novembro de 2017

Halimium halimifolium (L.) Willk.

Nome comum: Sargaça


Os fogos foram, desde sempre, um dos maiores problemas na bacia do Mediterrâneo. A geografia física da região parece favorecer a incidência de incêndios; e o tipo de clima em que são constantes os períodos de seca é, por si só, um factor de risco. 

Inicialmente o fogo era uma força da natureza, componente natural que surgia de forma mais ou menos periódica no ciclo vegetativo, permitindo um rejuvenescimento das populações e ajudando a criar um novo mosaico de comunidades vegetais.
No entanto, a entrada em cena do elemento humano (há cerca de 10, 000 anos nas regiões orientais e 4,000 nas terras do ocidente) veio perturbar o equilíbrio natural. O Homem não só usou o fogo como também abusou da sua força, utilizando-o de forma indiscriminada e gananciosa para desbastar as florestas e dessa forma conseguir novos campos para a agricultura e o pastoreio. De forma sistemática e constante, a paisagem do Mediterrâneo foi sendo moldada pelas actividades antropogénicas. Em consequência, flora e fauna foram-se adaptando aos distúrbios causados pelo Homem. 

Nada mudou desde que há milhares de anos o Homem chegou à região. Incúria, desleixo e atividades criminosas são parcialmente responsáveis pelos extensos fogos que todos os anos atingem a região. No passado verão, além dos prejuízos irreparáveis na flora e fauna, os incêndios causaram mortos, feridos e obrigaram à evacuação de cerca de 12 000 pessoas em Portugal, França, Córsega, Itália e Albânia. Cerca de 90% da área ardida na Europa localiza-se na bacia do Mediterrâneo.

No entanto, a flora mediterrânica é de uma diversidade riquíssima, sendo constituída por espécies resistentes, calejadas pelas muitas dificuldades que encontram: seca, solos pobres e fogo. A vegetação atual da bacia do Mediterrâneo resulta de milhares de anos de evolução, durante as quais as plantas adquiriram mecanismos que lhes permitem superar os efeitos dos fogos e dos fatores climáticos (como a seca de verão). 
Cada tipo de espécie desenvolveu diferentes métodos de sobrevivência para subsistir a distúrbios e perpetuar-se, bem como as comunidades a que pertencem. 

Na península Ibérica o tipo de vegetação arbustiva tipicamente mediterrânica prospera, muitas vezes, em campos agrícolas ou pastagens abandonados, em áreas florestais degradadas e nos cumes montanhosos. 
O pastoreio intensivo e os fogos continuam, em grande parte, a ser responsáveis pela degradação do solo. Vão desaparecendo as árvores e vai-se favorecendo a expansão de arbustos oligotróficos e pirofíticos, os quais, na realidade são muitíssimo úteis pois impedem a erosão dos solos.
- O termo oligotrófico usa-se para caracterizar plantas que prosperam melhor em ambientes muito pobres em nutrientes.
- Plantas pirofíticas são aquelas que ao longo de milhares de anos evoluíram no sentido de se defenderem dos fogos periódicos. Para tal, desenvolveram estratégias tais como: ajuste do seu crescimento anual à disponibilidade de água no solo; sistema radicular capacitado para minimizar as alterações resultantes da distribuição sazonal da precipitação anual; estômatos (aberturas nas folhas responsáveis pela transpiração) que abrem o fecham de acordo com a necessidade diária.
Entre eles distinguem-se:
- Pirofitos de resistência passiva, os quais contêm um alto teor de água nos seus tecidos como é o caso do Agave e outras suculentas ou possuem uma casca espessa como o sobreiro (Quercus suber);
- Pirofitos que rebrotam a partir de um enraizamento profundo ou devido a rebentos epicormicos (vulgarmente conhecidos como rebentos ladrões) como no caso do carrasco (Quercus coccifera) e do medronheiro, Arbustos unedo;
- Pirofitos cujas sementes são estimuladas a germinar pela ação do  fogo, como é o caso da espécie que hoje entra em cena, Halimium halimifolium.


Halimium halimifolium é uma espécie nativa da região oeste mediterrânica, cobrindo as regiões que vão de Portugal à Itália e de Marrocos até à Tunísia.
Em Portugal ocorre em todo o litoral a sul de Aveiro e também Ribatejo, Baixo Alentejo e Algarve.
O seu habitat natural são sobretudo os areiais costeiros, os pinhais e sobreirais, constituindo os chamados matagais xerofilicos, situação em que se associam espécies que se adaptaram a meios secos e que sobrevivem com quantidades de água reduzidas. Formam um tipo de vegetação que caracteriza os climas mediterrânicos (ex: sobreiro, carrasco, alecrim, rosmaninho, alfazema, tojo, esteva e tantas outras já descritas neste blogue), espécies especialmente resistentes aos fogos.
Halimium halimifolium forma um pequeno arbusto ereto e muito ramificado que pode chegar aos 150 cm de altura. 
O exemplar identificado nas fotos que acompanham este texto é, contudo, bastante mais pequeno, mal ultrapassando os 30 cm, sendo que o ano foi seco e a planta não teve possibilidades de se desenvolver em todo o seu potencial. 
Cultivada em jardins é uma espécie muito ornamental e apreciada não só pelo colorido das flores mas também pelos tons prateados da folhagem.
O eixo central é algo lenhoso com a superfície em tons avermelhados. Os caules estão densamente cobertos por pelos estrelados ( irradiando de um centro, como os raios de uma estrela) que são hialinos (transparentes e sem cor) nos caules mais jovens,dando-lhe uma cor prateada e são vermelho-acastanhados nos caules mais velhos.
As folhas são elípticas ou lanceolado-espatuladas, com pecíolo curto, opostas e de cor verde-acinzentada, cobertas por pelos densos em ambas as páginas, os quais permitem algum alivio ao refletirem os raios solares.
As flores agrupam-se em inflorescências terminais, frouxas ou densas. Os pedicelos da inflorescência estão cobertos de pelos estrelados e/ou peltados de cor avermelhada.
O cálice é constituído por 5 sépalas desiguais e cobertas, em proporção variável, por pelos peltados ou estrelados. As duas sépalas externas são pequenas e de forma linear (podendo estar reduzidas a uma única) e estão parcialmente unidas às internas que são 3, maiores e acrescentes na frutificação, o que significa que acompanham o crescimento do fruto.
A corola possui 5 pétalas iguais de cor amarelo-dourado que podem ter, ou não, manchas escuras na base.
Cada flor possui órgãos reprodutores masculinos e femininos. O ovário é tricarpelar, dando origem a um fruto com 3 valvas. Dele desponta um estilete curto com estigma de cor branca e em forma de clava. Os estames, todos de cor amarela são numerosos e de tamanho irregular.
As flores abrem de manhã cedo e duram apenas algumas horas, logo sendo substituídas por outras. No momento em que as pétalas abrem, a maior parte das anteras já começaram a libertar o pólen o qual é imediatamente recolhido pelos primeiros insetos visitantes. Estas flores não produzem néctar pelo que a única atração é o pólen. Ao fim de 11 a 12 horas as flores já terão todas sido polinizadas razão pela qual as pétalas caiem, não sendo já necessárias.
O maior grupo de insetos visitantes são do género coleoptera tais como escaravelhos, joaninhas, gorgulhos.


O fruto é uma cápsula que permanece inclusa no cálice persistente. É deiscente e de forma ovóide, com o ápice coberto de pelos estrelados. Abre-se por 2 ou 3 valvas dentro das quais existem numerosas sementes acastanhadas.


Em condições naturais a percentagem de germinação é relativamente baixa, entre os 20 e os 30 %, o que pode indicar a presença de uma dormência primária da maioria das sementes, dormência essa que se inicia durante as fases iniciais ou finais do desenvolvimento da semente na planta-mãe e está associada à existência de uma grande dureza da capa exterior. Esta capa extra-dura registada numa grande percentagem de sementes torna-as impermeáveis à humidade e ao oxigénio. Ou seja, parece evidente que a planta produz uma pequena proporção de sementes de cobertura mole e germinação fácil que asseguram a manutenção das populações e uma alta percentagem de sementes de capa dura que garantem a criação de um banco de sementes no solo. Seguindo o seu curso natural esta dormência poderá ser quebrada através da deterioração progressiva em resultado da humidade da chuva, erosão mecânica, ação microbiana ou altas temperaturas provocadas pelo fogo.



Halimium halimifolium é uma espécie com grande variabilidade morfológica, sobretudo com diferenças ao nível dos pelos que cobrem as sépalas. São consideradas duas subespécies. Ambas ocorrem em Portugal mas com distribuição diferente:
Halimium halimifolium subespécie halimifolium:
- Caracterizada por sépalas unicamente com pelos peltados, amarelados, as vezes com alguns pelos estrelados, hialinos nas margens e no ápice.
Em Portugal ocorre principalmente na região do Algarve (Flora Iberica).
Halimium halimifolium subespécie multiflorum:
- Caracterizada por sépalas cobertas de pelos peltados amarelados misturados com numerosos pelos estrelados hialinos.
Esta é a espécie mais comum em Portugal (Flora Iberica).
e - pelos peltados: apresentam todas as células no mesmo plano, formando um escudo.
f - pelos estrelados: irradiam de um centro para a periferia, como os raios de uma estrela.
Halimium halimifolium subsp. multiflorum
Desenho de Flora Iberica
Esta espécie foi originalmente incluída no género Cistus. De facto, Cistus halimifolius é o nome original desta espécie (basiónimo) o qual lhe foi atribuído por Lineu em Species Plantarum (1753): Cistus, devido à semelhança das flores com espécies desse género e halimifolius por ter folhas acinzentadas semelhantes às de uma espécie de outro género que vive em ambientes salgados das regiões costeiras, Atriplex halimus
Porém, cerca de um século mais tarde a espécie foi transferida do género Cistus para o género Halimium pelo botânico alemão Wilkomm, tendo sido o termo com que Lineu designou a espécie (halimifolius) alterado para halimifolium.
(os termos halimus, halimifolius, halimifolium todos derivam do grego "hals, halós"= mar, sal).
Os géneros Cistus e Halimium pertencem ambos à família Cistaceae e são reconhecidos como géneros distintos apesar de partilharem algumas características, como por exemplo o número de cromossomas (2n = 18), sendo que as espécies dos outros géneros da mesma família possuem números de cromossomas diferentes. 
A distinção entre estes dois géneros foi baseada principalmente em carateres morfológicos: 
- Cistus tem flores rosa ou brancas com 5 lóculos em cada ovário (exceto Cistus ladanifer que tem entre 6 e 12). 
- Halimium tem flores amarelas ou brancas com 3 lóculos em cada ovário. 
Contudo, flores brancas com 4 lóculos em cada ovário podem ser encontrados em ambos os géneros (Demoly, 1998). Também o número de sépalas pode apresentar-se variável num e noutro destes géneros, podendo registar-se uma sobreposição de características morfológicas e as transições entre os dois géneros são contínuas. Existe compatibilidade entre as espécies dos dois géneros pelo que hibridizam com facilidade tendo dado origem a espécies separadas que foram colocadas no género xHalimiocistus.
O género Cistus distribui-se desde o Mediterrâneo ocidental até às montanhas do Cáucaso ao passo que Halimium está confinado ao Mediterrâneo ocidental, com pequenas ocorrências na Grécia.
Como vimos, as 20 espécies de Cistus e as 7 de Halimium estão separadas desde o século XVIII. O híbrido destes dois géneros (x Halimiocistus) contém 3 espécies.
Em 2006, foi proposto (Demoly J.P.) que todas as espécies de Halimium e xHalimiocistus fossem incluídas no género Cistus.
Halimium halimifolium floresce entre os meses de março a agosto.

Várias espécies da família Cistaceae, principalmente dos géneros Cistus e Halimium são muito apreciadas como ornamentais em jardinagem, pela beleza da folhagem, colorido das flores. Os anglo-saxónicos chamam-lhes rockroses, ou seja, rosas das rochas. Apesar de tolerantes aos solos pobres em nutrientes e resistentes aos períodos de seca, quando cultivadas em jardins estas plantas beneficiam muito se lhes for dar dado algum cuidado extra, incluindo algum composto nas raízes e não as deixando passar muita sede.

Fotos de Halimium halimifolium: Serra do Calvo/Lourinhã

Para mais informações e fotos sobre o género Cistus pode consultar a seguinte lista de espécies já descritas neste blogue:

Cistus crispus (roselha)
Cistus monspeliensis (sargação)
Cistus salvifolius (estevinha)


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Xanthium spinosum L.

Nomes comuns:
Pica-três, bardana-espinhosa, arzola, gatinho


Quando voltamos de um passeio de verão pelo campo, são grandes as hipóteses de trazermos para casa a tarefa incomoda de arrancar pequenas sementes e folhas que se agarraram tenazmente às meias e aos atacadores dos sapatos de ténis. 
Ganchos, espinhos ou outros "apetrechos" permitem que pequenas sementes se agarrem a tudo o que passa perto. São intencionais e fazem parte das estratégias de que se socorrem certas espécies para se fazerem transportar à boleia para longe da planta-mãe, conseguindo assim iniciar novas colónias. Nesta perspetiva uma das plantas mais irritantes é Xanthium spinosum, uma sobrevivente por excelência que, a pouco e pouco, vem conquistando lugar privilegiado no mundo.


Xanthium spinosum é muito fácil de identificar. 
É uma planta anual, robusta e de tamanho médio, podendo atingir os 90 cm de altura. Os seus caules são eretos ou ligeiramente curvados, rígidos e muito ramificados. 

A seta assinala os espinhos tripartidos que nascem na axila das folhas
Os caules são de cor verde-claro, com um indumento de pelos fracos e densos. Quando jovens os caules são herbáceos tornando-se, depois, algo lenhosos. De forma característica, os caules projetam longos espinhos tripartidos de cor amarelada que nascem nos nós da axila das folhas.


As folhas dispõem-se de forma alternada e ligam-se ao caule através de pecíolos curtos ou são quase sésseis. As folhas são relativamente estreitas, com forma lanceolada ou elíptica e são profundamente recortadas; as inferiores são muito irregulares com cinco lóbulos, sendo o lóbulo médio muito maior que os restantes; as folhas superiores são bastante mais alongadas dado que os lóbulos medianos podem ser insignificantes ou ausentes. 


A página superior das folhas é de cor verde-escuro brilhante, com pelos fracos e ralos, mais densos nas nervuras proeminentes e de cor clara; as páginas inferiores apresentam cor esbranquiçada devido à cobertura de pelos curtos e densos, enrolados sobre si próprios.
Este é o capitulo que podemos observar em muitas das espécies da família Asteraceae
mas não é o caso de Xanthium spinosum, como veremos no texto.

Esta espécie está incluída na família Asteraceae/Compositae, no entanto, as flores e os frutos são muito diferentes da generalidade das espécies deste grupo. A maior diferença reside no facto de Xanthium spinosum produzir capítulos de flores unissexuais ao contrário dos habituais capítulos de flores bissexuais.
A principal característica das Asteraceae são os capítulos, em que as flores minúsculas estão inseridas num recetáculo em forma de disco e separadas por pequeníssimas brácteas, estando este conjunto envolvido por um invólucro formado por uma camada de brácteas maiores.
Ao contrário do que acontece na maioria das espécies da família Asteraceae (em que as flores masculinas e flores femininas se agrupam-se num mesmo capítulo), em Xanthium spinosum os capítulos são constituídos por flores do mesmo sexo, ou seja, existem capítulos com flores masculinas +  capítulos com flores femininas, mas ambos os tipos coexistindo numa mesma planta (planta monóica). 
Em Xanthium spinosum as flores masculinas também são diferentes das femininas

Ora vejamos:
A seta assinala as flores masculinas
- Os capítulos masculinos podem ser numerosos e agrupam-se no ápice dos caules ou na axila das folhas superiores. São globosos, com recetáculo cilíndrico e com invólucro ligeiramente cónico devido à forma lanceolada das brácteas que o formam.
Cada capítulo masculino tem flores mais ou menos numerosas, as quais são pequeninas e inconspícuas, de cor variável branco-amarelado ao amarelo-esverdeado. As corolas são tubulares e translucidas, com 5 lóbulos. Os estames são 5, com os filetes unidos, mas com as anteras livres.
A seta assinala as flores masculinas e a estrela indica as flores femininas
- Os capítulos femininos crescem na axila das folhas superiores mas abaixo dos masculinos com as flores femininas prontinhas para receber a chuva de pólen que há-de vir de cima, trazida pela brisa. 
Os capítulos femininos são solitários ou pouco numerosos e cada capítulo tem apenas 2 flores. Estas encontram-se encerradas dentro de uma estrutura ovóide formada pelas brácteas involucrais que são coreáceas e cobertas de espinhos em forma de gancho. Internamente, o capítulo divide-se em dois lóculos, cada um deles com uma flor feminina sem pétalas. A fertilização realiza-se através dos estiletes que estão ligados ao ovário e se apresentam salientes através das aberturas que existem em cada uma das extremidades do invólucro. O pólen dispersa-se com a ajuda do vento.
Após a fecundação os capítulos femininos transformam-se em frutos rígidos e espinhosos, inicialmente de cor verde e depois amarelo-acastanhado, com duas sementes no seu interior. A planta só se reproduz por semente.


Os espinhos dos frutos terminam em gancho e aderem ao pelo dos animais e à nossa roupa. Só com muita dificuldade são retirados, o que lhes permite “viajar” longas distancias e germinar longe da planta-mãe, assim iniciando novas colónias. 
Há quem diga que o suíço George de Mestral se inspirou na morfologia dos espinhos destes frutos para inventar o Velcro, em meados do século passado. As sementes também podem dispersar-se através da infestação do pasto ou outros grãos. Flutuam perfeitamente, dispersando-se também ao viajarem nos cursos de água ou nos regatos  formados pela água das chuvas.
As duas sementes que se encontram no interior dos frutos apresentam períodos de dormência diferentes. A semente de baixo pode germinar logo na estação seguinte, mas a outra só germinará passados 2 ou 3 anos permanecendo viável durante cerca de 8 anos.
A planta floresce e frutifica de julho a novembro, geralmente produzindo sementes durante 2 a 3 meses. Em media, cada planta produz cerca de 150 sementes. 

Esta é uma espécie largamente distribuída pela maioria dos países temperados ou subtropicais do mundo inteiro. Prospera com vigor e grande poder invasivo em locais onde o solo foi perturbado, tal como a beira dos caminhos, pastagens, terrenos baldios e zonas costeiras. É muito resistente à seca, apesar disso, é muito frequente também em terrenos periodicamente alagados e margens de cursos de agua, diques e barragens.
Provou adaptar-se de forma notável numa grande variedade de climas e outras condições ambientais com exceção de climas de frio ou calor extremo. De forma geral, nas regiões tropicais só ocorre em altitude, onde as temperaturas são mais amenas. Aparentemente não apresenta requisitos especiais no que diz respeito ao tipo de solo. A ampla distribuição de Xantium spinosum pode ser atribuída, pelo menos em parte, à sua capacidade de adaptação a uma variada gama de condições climáticas e edáficas.


Xanthium spinosum ocorre na maioria dos países do mundo quer no hemisfério norte quer no hemisfério sul,
entre as latitudes 50ºN e 43ºS, segundo algumas fontes.
Fonte do mapa: Wikimedia commons
Encontra-se mais abundantemente distribuída na Europa, região mediterrânica, Austrália, algumas regiões costeiras de África, na América do Sul e Estados Unidos.
Mapa da distribuição de Xanthium spinosum em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD.

Esta planta é nativa da América do Sul, provavelmente do Chile, embora outros países desse grande continente reclamem a honra (Bolívia, Equador, Peru, Uruguai e Argentina). Xanthium spinosum espalhou-se pelo resto do mundo, tendo-se naturalizado de forma bastante rápida e adquirindo hábitos invasores.
As exatas origens de Xanthium spinosum permanecem algo confusas e os seus limites obscuros. Inicialmente, foi considerada nativa da Europa mas, atualmente, parece ser ponto assente que esta planta é nativa da América do Sul, introduzida e naturalizada nos restantes locais onde ocorre.
Os dados sobre a data do início da sua introdução noutros continentes e a forma como tal se passou são muito limitados. Segundo alguns autores esta planta terá chegado à Europa através de Portugal. Aliás, a espécie-tipo (espécimen de herbário sob a forma de planta seca e que serviu originalmente para lhe dar o nome) é de Portugal. 
Pius Font i Quer, botânico, farmacêutico e químico espanhol, na sua obra "Plantas medicinales: el Dioscórides renovado" (1962) refere que no século XVII esta planta era denominada Xanthium lusitanicum spinosum, numa clara alusão ao território português. Foi assim chamada por Leonard Plukenet, botânico inglês na sua obra "Almagestum botanicum" (1696), e também pelo botânico francês Magnol em "Hortus regius Monspeliensis" (1697).
Com base no ensaio "Géographie Botanique" publicado em 1820 pelo botânico suíço De Candolle, Font Quer refere que a planta mencionada por Magnol teria sido obtida a partir de sementes levadas para França por Tournefort (botânico francês 1656-1708), as quais lhe teriam sido dadas por um jardineiro português.
Em consequência, na sua primeira edição de "Species plantarum" (1753) Lineu refere a Lusitania como o habitat desta planta.

O termo Xanthium deriva do grego xanthos (=amarelo) numa referência ao corante amarelo que pode ser retirado dos frutos.
Spinosum vem do latim e refere-se aos caules espinhosos.

Esta espécie está classificada como altamente invasora na maioria das áreas onde foi introduzida. Produz sementes de forma muito prolífica, com altas taxas de germinação e sobrevivência, provocando prejuízos avultados nas safras agrícolas sobretudo da soja e algodão; ao agarrarem-se tenazmente ao pelo das ovelhas as sementes contaminam a lã, afetando as industrias de têxteis. Além do mais, é uma ameaça à fauna e flora nativas devido à sua adaptabilidade a uma ampla gama de habitats. A erradicação através de herbicidas tem-se mostrado ineficaz pelo que poderão ser equacionados meios biológicos.
As sementes, e as folhas na sua fase emergente, são muito tóxicas para o gado e animais domésticos, principalmente porcos e cavalos. Contudo, a não ser que os animais sejam obrigados a pastar onde esta planta exista em abundância, não é grande motivo de preocupação pois as folhas não agradam ao paladar dos animais e as sementes, encerradas num invólucro rígido e cheio de picos, também não são apelativas. A toxicidade das folhas desvanece-se à medida que se desenvolvem e aumentam de tamanho, embora o mesmo não aconteça com a secagem.

Xanthium spinosum já foi muito usada em medicina caseira, sobretudo pelos índios da América do Sul, por presumíveis efeitos benéficos contra alguns tipos de cancro, diabetes e cardiopatias. 
Entretanto, foram efetuados estudos e experiências “in vivo”  e “in vitro” sobre as diferentes atividades farmacológicas e fitoquímicas desta planta, os quais demonstraram propriedades analgésicas, anti-inflamatórias, antiartríticas, antiangiogénese e antivírus. São, no entanto, necessárias mais experiências para explorar o potencial terapêutico em termos de utilidade clínica.

Xanthium spinosum pertence ao género Xanthium, assim denominado pelo botânico francês Tournefort (1656-1708),  cujo trabalho foi aperfeiçoado por Lineu. Lineu aproveitou o nome genérico Xanthium em "Species Plantarum" (1753) no qual incluiu duas espécies, Xanthium spinosum e Xanthium strumarium. Desde então algumas 30 espécies foram descritas e incluídas neste género. Ora, dá-se o caso de Xanthium strumarium - que cresce um pouco por todo o mundo e também em Portugal - ser uma planta extremamente variável em termos de hábito, forma e tamanho dos frutos e reação a fatores do meio ambiente. Assim, as numerosas espécies apresentadas como espécies diferentes poderão, segundo alguns botânicos, não passar de variantes de Xanthium strumarium.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã